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O ÚLTIMO GOLE, por João Maria Ludugero



Sou Romeu de tal, 
mais um cidadão 
que sobrevive de migalhas
alheias, dos sobejos de outrem,
do que sobra na dispensa do sobrado
onde se refastela o manda-chuva
Sou Romeu, aquele que acorda cedo,
madruga só pra ver estrelas no batente,
logo ao toque da estridente sirene
que me chama pra traçar a dura lida:
argamassa, tijolo, cimento e vigas,
só pra conseguir levantar muros e cobri-los,
fazer concreto, equilibrar-se no andaime.
Sou Romeu, aquele que constrói casas,
platibandas, paredes, tetos e janelas,
enquanto se esquece da vida num copo
quando traga voraz a cachaça,
aguardente de gosto amargo
que lhe queima a garganta, mas vai fundo...
Pobre Romeu! Seu corpo é um copo,
um copo que não mais lhe cabe.
Seu sonho é um prato do dia, sem deleite
do que já não mais sacia.
Seu caso é de cirrose crônica,
seu fígado virou um troço.
De tanto levantar copo esqueceu sua Julieta
que, sóbria, debandou, fugiu com outro
só pra não se cobrir de morte feito ele,
que já adivinha o tempo que lhe resta,
prestes a tragar seu último gole.
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João Maria Ludugero

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